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Gestrinona em implante para endometriose: o que o novo estudo realmente mostrou

A endometriose é uma doença crônica que pode impactar profundamente a qualidade de vida da mulher. Mesmo após a cirurgia, algumas pacientes seguem convivendo com dor pélvica, sintomas intestinais, fadiga e limitações na rotina.

Por isso, qualquer novidade no tratamento desperta esperança. Foi o que aconteceu com um novo estudo brasileiro que avaliou uma forma diferente de usar um medicamento já conhecido: a gestrinona em implante bioabsorvível.

A proposta é interessante: em vez do uso em comprimidos, a gestrinona foi colocada em um implante inserido sob a pele, com liberação gradual do medicamento ao longo dos meses. Mas, antes de interpretar esse resultado como uma solução definitiva, é fundamental entender o tipo de estudo realizado e os limites dos dados disponíveis.

 

O que é a gestrinona?

A gestrinona é um medicamento hormonal já estudado no contexto da endometriose. Ela atua reduzindo estímulos hormonais relacionados à atividade da doença, o que pode ajudar no controle de sintomas em algumas pacientes.

No estudo analisado, a novidade não foi exatamente a substância em si, mas a forma de administração: um implante bioabsorvível, também conhecido popularmente como “chip”, inserido sob a pele da região glútea por meio de um pequeno corte.

A ideia é que o organismo libere o medicamento aos poucos, sem necessidade de doses diárias. Essa possibilidade chama atenção, mas ainda precisa ser avaliada com cautela.

 

O que significa um estudo de Fase II?

Este é um ponto central para entender a notícia.

Todo medicamento novo, ou uma nova forma de usar um medicamento já existente, passa por etapas de pesquisa antes de ser incorporado à prática clínica de forma ampla.

  • Fase I: avalia, em poucas pessoas, os primeiros dados de segurança.
  • Fase II: testa o tratamento em um grupo ainda pequeno, principalmente para confirmar segurança e observar sinais iniciais de benefício.
  • Fase III: envolve grupos maiores, com centenas ou milhares de participantes, para comprovar eficácia e comparar o tratamento com opções já existentes.

Ou seja: um estudo de Fase II é importante, mas ainda não permite afirmar que o tratamento funciona melhor do que as alternativas disponíveis. Ele indica que o caminho merece ser investigado em estudos maiores.

 

Como o estudo foi feito

O estudo, chamado GLADE, foi conduzido em sete centros de pesquisa no Brasil e acompanhou 100 mulheres com dor pélvica associada à endometriose, que já haviam passado por cirurgia.

Do ponto de vista metodológico, o estudo teve características importantes: foi randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Isso significa que as participantes foram sorteadas para os grupos e que nem elas nem os médicos sabiam quem recebeu o implante com gestrinona e quem recebeu o implante sem o medicamento.

Todas as participantes também receberam um DIU de levonorgestrel. Além disso, foram sorteadas para receber o implante de gestrinona de 85 mg ou um implante placebo. O acompanhamento durou 24 semanas, cerca de seis meses.

O que o estudo mostrou de positivo

O principal objetivo do estudo era avaliar segurança. Nesse ponto, os resultados foram considerados tranquilizadores no curto prazo.

Não houve eventos adversos graves relacionados ao tratamento, e a maior parte dos efeitos colaterais relatados foi de intensidade leve a moderada. Também houve sinais preliminares de melhora da dor a partir da 12ª semana.

  • Nenhum efeito colateral grave relacionado ao tratamento foi registrado.
  • O implante manteve níveis estáveis do medicamento no sangue ao longo dos meses.
  • A partir da 12ª semana, mais mulheres do grupo da gestrinona relataram dor de menor intensidade.
  • A satisfação com o tratamento foi alta e semelhante entre os grupos.

 

O que exige cautela

Apesar dos pontos positivos, o estudo também trouxe dados que precisam ser considerados com atenção.

Os efeitos de androgenização, popularmente chamados de efeitos de “masculinização”, foram mais frequentes no grupo que recebeu gestrinona. Entre eles, os autores destacaram queda de cabelo, acne e alteração na voz.

  • Efeitos androgênicos foram mais comuns no grupo da gestrinona.
  • Houve mais alterações em exames de colesterol, hormônios e parâmetros sanguíneos.
  • Os efeitos colaterais em geral foram mais frequentes no grupo da gestrinona.
  • O acompanhamento foi curto, de apenas 24 semanas.
  • O número de participantes ainda foi pequeno para conclusões definitivas.

 

Por que ainda não podemos falar em eficácia comprovada na gestrinona?

Este é o ponto mais importante: o estudo traz uma sinalização inicial, mas não prova que o implante de gestrinona seja eficaz como tratamento definitivo da endometriose.

Há algumas razões para essa cautela.

 

1. Todas as participantes usaram DIU

Como tanto o grupo da gestrinona quanto o grupo placebo utilizaram o DIU de levonorgestrel, é difícil saber quanto da melhora observada veio da gestrinona e quanto pode estar relacionado ao próprio DIU, que já é utilizado no manejo da endometriose.

 

2. A análise de eficácia foi exploratória

Os dados sobre dor e qualidade de vida foram avaliados como sinais iniciais. Eles ajudam a formular hipóteses para estudos futuros, mas não representam uma comprovação definitiva.

 

3. O acompanhamento foi curto

Seis meses de acompanhamento não são suficientes para avaliar segurança e efeitos a longo prazo, especialmente quando falamos de possíveis alterações androgênicas, como acne, queda de cabelo e alteração de voz.

 

4. O estudo ainda precisava de validação científica

No momento descrito pelo próprio material, o estudo era apresentado como preprint, ou seja, ainda não havia passado pela revisão por pares. Essa etapa é importante porque outros especialistas analisam a metodologia, os resultados e a interpretação dos dados antes da publicação final.

 

O que levar para casa

O implante bioabsorvível de gestrinona é uma possibilidade interessante e o estudo deu um passo importante ao avaliar sua segurança no curto prazo.

Porém, ele ainda não deve ser interpretado como cura comprovada, solução definitiva ou tratamento de primeira escolha para endometriose. Para isso, serão necessários estudos maiores, de Fase III, com mais participantes, acompanhamento mais longo e comparação adequada com os tratamentos já estabelecidos.

Para quem convive com endometriose, a melhor conduta continua sendo uma avaliação individualizada. O tratamento deve considerar o tipo de endometriose, os sintomas, a idade, o desejo reprodutivo, o histórico cirúrgico, os efeitos colaterais possíveis e os objetivos de cada paciente.

A ciência avança quando novas possibilidades são estudadas com seriedade. Mas, na medicina, esperança precisa caminhar junto com prudência.

 

Perguntas frequentes sobre gestrinona e endometriose

 

1. O implante de gestrinona cura a endometriose?

Não. Até o momento, o implante de gestrinona não deve ser considerado uma cura para endometriose. O estudo citado avaliou principalmente segurança em curto prazo e trouxe sinais preliminares, mas ainda não comprova eficácia definitiva.

2. O que significa o estudo ser de Fase II?

Significa que o tratamento foi avaliado em um grupo ainda pequeno, principalmente para observar segurança e primeiros indícios de benefício. Para comprovar eficácia, são necessários estudos maiores, geralmente de Fase III.

3. A gestrinona pode causar efeitos colaterais?

Sim. No estudo, os efeitos androgênicos foram mais frequentes no grupo que recebeu gestrinona, incluindo acne, queda de cabelo e alteração na voz. Também foram observadas alterações em exames laboratoriais.

4. O implante de gestrinona é indicado para todas as pacientes com endometriose?

Não. A indicação de qualquer tratamento hormonal deve ser individualizada e discutida com o médico, considerando sintomas, histórico clínico, riscos, efeitos colaterais e objetivos da paciente.

5. O que ainda falta saber sobre esse tratamento?

Ainda faltam estudos maiores, com mais pacientes e acompanhamento mais longo, para confirmar se o implante realmente melhora a dor e a qualidade de vida de forma superior às opções já disponíveis.

 

 

Referência

Oliveira ALML, et al. Gestrinone subdermal bioabsorbable implant for the treatment of endometriosis-associated pelvic pain: a phase II, safety randomised clinical trial (estudo GLADE, NCT05570786). Preprint, 2026 — não revisado por pares no momento da publicação do material original.

 

Dr. Tiago Castilho

Cirurgião oncológico com atuação em cirurgia de endometriose profunda e oncologia ginecológica.
Atendimentos em Maringá-PR e online.

CRM-PR 22590  |  RQE 2911  |  RQE 844

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