Muitas mulheres convivem anos com dor, cansaço e sintomas intestinais antes de ouvir a palavra “endometriose”. Não é incomum que o diagnóstico demore de 7 a 10 anos — em parte porque a doença ainda é vista, por muita gente, como “cólica forte” ou um problema restrito ao período menstrual. Quando os sintomas aparecem fora desse padrão, ou fora da pelve, a paciente costuma não ser levada a sério.
O entendimento científico atual conta outra história. A endometriose afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva e é hoje compreendida como uma doença inflamatória e sistêmica — ou seja, capaz de repercutir em diferentes partes do corpo, e não apenas no útero e nos ovários. Entender essa mudança ajuda a explicar por que os sintomas são tão variados e por que o cuidado precisa ir além do controle hormonal.
A visão antiga: uma doença hormonal
Por muito tempo, a endometriose foi explicada quase exclusivamente como uma doença estrogênio-dependente. E há verdade nisso: o estrogênio realmente participa da manutenção das lesões e da intensidade dos sintomas, e é por essa razão que boa parte dos tratamentos disponíveis atua justamente na supressão hormonal.
O problema é que essa explicação, sozinha, não dá conta de tudo. Ela não explica por que algumas pacientes seguem com dor mesmo sob bloqueio hormonal, por que os sintomas às vezes vão muito além da pelve, nem por que a endometriose aparece associada a outras condições do organismo. Faltava uma peça — e essa peça é a inflamação.
A visão atual: uma doença inflamatória e sistêmica
A ciência hoje reconhece a endometriose como uma condição inflamatória crônica com repercussão em vários sistemas. Além do componente hormonal, ela envolve uma resposta imune alterada e um ambiente inflamatório persistente que ajuda a manter as lesões ativas. Não por acaso, a endometriose aparece associada, com mais frequência do que se esperaria, a outras doenças de fundo imunológico.
Essa mudança de olhar tem uma consequência prática importante para a paciente: sintomas que pareciam “não ter nada a ver” com a endometriose — alterações intestinais, dor fora do período, fadiga — passam a fazer sentido dentro de um quadro mais amplo. A endometriose deixa de ser uma condição localizada e passa a ser entendida como algo que pode afetar o funcionamento do corpo de forma mais global, comprometendo profundamente a qualidade de vida.
O papel da inflamação crônica
A inflamação crônica é uma das marcas da endometriose. Diferente da inflamação aguda — aquela que surge após um machucado e passa em poucos dias —, ela é silenciosa e persistente, e é justamente essa permanência que sustenta boa parte do problema.
Esse ambiente inflamatório favorece a sobrevivência das lesões, a formação de novos vasos que as alimentam e a sensibilização das vias de dor, o que ajuda a explicar por que a dor da endometriose muitas vezes é desproporcional ao que exames de imagem mostram. Em outras palavras: não é “frescura” nem “dor inventada”. Há um processo biológico real por trás dela — e reconhecer isso é parte do cuidado.
A face metabólica da endometriose
Além da inflamação, um outro aspecto vem ganhando atenção: a relação entre endometriose e metabolismo. Estudos mostram que mulheres com endometriose apresentam taxas mais elevadas de síndrome metabólica e de resistência à insulina do que a população geral — e isso se mantém mesmo quando se ajusta o peso corporal, o que sugere que a associação não se explica apenas pela obesidade.
Alguns pontos ajudam a entender esse cruzamento. A resistência à insulina — quando o corpo precisa produzir mais insulina para manter a glicose sob controle — pode contribuir para um ambiente de maior inflamação e proliferação celular. A obesidade tem papel próprio: o tecido adiposo não é um depósito inerte, mas um órgão que produz substâncias inflamatórias e participa da produção periférica de estrogênio. E a síndrome dos ovários policísticos (SOP), marcada por resistência à insulina, aparece com frequência associada à endometriose.
É importante ser claro: isso não significa que toda paciente com endometriose tenha alteração metabólica. Significa que, em parte delas — sobretudo quando há obesidade, resistência à insulina ou SOP associadas —, o metabolismo entra na equação e não pode ser ignorado no planejamento do cuidado.
Por que isso muda o cuidado da endometriose
Entender a endometriose como doença inflamatória, hormonal, imunológica e também metabólica muda a forma de cuidar dela. Um quadro que afeta múltiplos sistemas raramente se resolve com uma única frente de tratamento: ele pede avaliação individualizada, atenção aos sintomas que vão além da pelve e uma visão que acompanhe a paciente como um todo.
É também esse entendimento mais amplo que abriu espaço para a pesquisa de novas abordagens. Justamente porque a doença tem uma face metabólica e inflamatória, terapias que atuam nessas vias passaram a ser investigadas — é o caso do debate atual sobre medicamentos metabólicos, tema que explico em detalhe no texto sobre Mounjaro e endometriose. Vale reforçar que se trata de pesquisa, não de tratamento aprovado; mas a existência dessa investigação é, em si, um sinal de como o entendimento da doença amadureceu.
Por que a endometriose pede um cuidado em equipe
Se a endometriose afeta vários sistemas do corpo, faz sentido que o cuidado também envolva mais de uma especialidade. Uma doença que combina dor, inflamação, repercussão intestinal, impacto hormonal e, em parte das pacientes, alterações metabólicas dificilmente é bem conduzida por uma única frente isolada.
Na prática, isso significa reunir diferentes olhares em torno da mesma paciente. A depender do caso, o cuidado pode envolver o ginecologista e, nos quadros de endometriose profunda, o cirurgião com experiência específica na doença; a radiologia especializada em endometriose, essencial para mapear as lesões antes de qualquer decisão; a fisioterapia pélvica, no manejo da dor e da função; a nutrição e a psicologia, que atuam tanto sobre o componente metabólico quanto sobre o impacto emocional de conviver com dor crônica; e, quando há acometimento de outros órgãos, especialidades como urologia e coloproctologia.
Nenhuma dessas peças substitui a outra — o valor está na soma. Um plano construído em conjunto tende a ser mais preciso do que condutas isoladas, sobretudo nos casos complexos: aqueles em que os sintomas persistem, o diagnóstico demorou anos ou mais de um sistema está envolvido. E, quando a cirurgia é necessária, esse mesmo raciocínio se estende à recuperação, que também se beneficia de uma equipe acompanhando cada etapa.
É essa lógica de decisão em equipe que faz diferença na endometriose profunda quando a situação exige mais do que uma única conduta. Reunir especialistas em torno de um caso — em vez de somar opiniões isoladas — costuma ser o que transforma anos sem resposta em um plano claro.
Perguntas frequentes sobre endometriose
- Endometriose é uma doença hormonal ou inflamatória?
As duas coisas. O estrogênio participa da manutenção das lesões e dos sintomas, mas a endometriose é hoje entendida como uma doença inflamatória crônica com repercussão em vários sistemas do corpo — por isso o cuidado vai além do controle hormonal.
- Por que a endometriose causa sintomas fora da pelve?
Porque é uma doença sistêmica. A inflamação crônica e a repercussão em outros sistemas ajudam a explicar sintomas como alterações intestinais, dor fora do período menstrual e fadiga, que nem sempre são associados de imediato à endometriose.
- Qual a relação entre endometriose e resistência à insulina?
Mulheres com endometriose apresentam taxas mais altas de resistência à insulina e síndrome metabólica do que a população geral, mesmo ajustando o peso. Isso não vale para todas as pacientes, mas indica que, em parte delas, o metabolismo faz parte do quadro.
- Obesidade e SOP pioram a endometriose?
Podem fazer parte de um cenário mais complexo. A obesidade se associa a mais inflamação e à produção periférica de estrogênio, e a SOP frequentemente aparece junto da endometriose. A avaliação individualizada é o que define o peso de cada fator em cada paciente.
- Por que demora tanto para diagnosticar endometriose?
Porque muitos sintomas ainda são interpretados como “cólica normal” ou problema restrito à menstruação, e porque a doença pode se manifestar de formas variadas. Reconhecer a endometriose como condição sistêmica ajuda a valorizar sintomas que antes passavam despercebidos.
- A endometriose precisa de tratamento com vários especialistas?
Depende da complexidade do caso. Em quadros de endometriose profunda ou com sintomas em mais de um sistema, o acompanhamento com uma equipe — ginecologista ou cirurgião, radiologia especializada, fisioterapia pélvica, nutrição, psicologia e, quando necessário, outras especialidades — tende a oferecer um plano mais completo do que condutas isoladas. A composição da equipe é definida caso a caso, conforme a avaliação médica.
Converse com o médico que acompanha o seu caso
Se você tem endometriose e utiliza creatina, ou está pensando em começar a suplementação, não precisa tomar uma decisão precipitada.
Os estudos disponíveis ainda são iniciais e não comprovam que a creatina piore a doença em seres humanos. Mesmo assim, os novos dados justificam uma avaliação cuidadosa e individualizada.
Converse com o médico que acompanha o seu caso antes de iniciar, suspender ou modificar qualquer suplementação.

Um grande abraço,
Dr. Tiago Castilho
Cirurgião oncológico com atuação em cirurgia de endometriose profunda e oncologia ginecológica.
Atendimentos em Maringá-PR e online.
CRM-PR 22590 | RQE 2911 | RQE 844
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