A endometriose é uma doença benigna. Isso precisa ficar claro desde o início.
No entanto, a medicina tem observado algo importante: apesar de não ser câncer, a endometriose pode apresentar alguns comportamentos biológicos parecidos com os de células tumorais. Essa comparação ajuda a explicar por que a doença pode causar dor intensa, crescer, invadir tecidos vizinhos e aparecer em diferentes regiões do corpo.
Entender essa relação não significa dizer que a endometriose é uma doença maligna. Pelo contrário: significa compreender melhor sua complexidade para buscar diagnósticos mais precoces, tratamentos mais precisos e um cuidado mais individualizado.
O que é endometriose?
A endometriose é uma condição crônica em que um tecido semelhante ao endométrio — camada que reveste o útero por dentro — cresce fora da cavidade uterina.
Esse tecido pode estar presente nos ovários, trompas, peritônio, ligamentos uterinos, intestino, bexiga e outras regiões da pelve. Em casos mais raros, lesões de endometriose também podem ser encontradas em locais mais distantes, como diafragma e pulmão.
Por isso, a endometriose não deve ser entendida apenas como uma causa de cólica menstrual. Ela pode ser uma doença complexa, inflamatória e com impacto importante na qualidade de vida da mulher.
Por que alguns pesquisadores comparam a endometriose ao câncer?
A comparação acontece porque a endometriose compartilha alguns comportamentos celulares observados em tumores. Isso não transforma a endometriose em câncer, mas ajuda a explicar por que ela pode ser persistente, infiltrativa e difícil de controlar em alguns casos.
Um estudo recente destacou oito comportamentos típicos de células cancerígenas que também podem ser observados na endometriose. Veja, de forma simples, o que isso significa.
1. As lesões podem crescer continuamente
As células da endometriose podem se multiplicar de forma persistente. Um dos fatores envolvidos nesse processo é o estrogênio, hormônio que pode estimular o crescimento das lesões.
Além disso, as próprias lesões podem produzir estrogênio localmente, criando um ciclo de inflamação e crescimento. Isso ajuda a explicar por que tratamentos que reduzem a ação hormonal podem melhorar os sintomas em muitas pacientes.
2. As células podem ignorar os “freios” naturais do corpo
No organismo, a progesterona atua como uma espécie de freio sobre o crescimento do tecido endometrial.
Na endometriose, porém, algumas células podem se tornar menos responsivas à progesterona. Esse fenômeno é chamado de resistência à progesterona e pode explicar por que determinados tratamentos hormonais funcionam melhor para algumas pacientes do que para outras.
3. A endometriose pode driblar o sistema imunológico
Em condições normais, o sistema imunológico deveria reconhecer e remover células que estão fora do lugar.
Na endometriose, esse processo pode falhar. Células de defesa, como células NK e macrófagos, podem se tornar menos eficientes, permitindo que as lesões sobrevivam em um ambiente de inflamação crônica.
4. As células podem sobreviver por mais tempo
Toda célula tem mecanismos naturais que limitam seu tempo de vida. Na endometriose, algumas células conseguem prolongar sua sobrevivência, mantendo-se ativas por mais tempo do que deveriam.
Esse comportamento contribui para a persistência das lesões e para a dificuldade de controle da doença em determinados casos.
5. As lesões podem invadir tecidos vizinhos
Uma característica importante da endometriose profunda é a capacidade de infiltrar estruturas próximas, como intestino, bexiga, ureteres, ligamentos pélvicos e nervos.
É por isso que a doença pode causar sintomas que vão muito além da cólica menstrual, incluindo dor ao evacuar, dor ao urinar, dor lombar, dor nas relações sexuais e sintomas intestinais.
Apesar desse comportamento infiltrativo, a endometriose continua sendo uma doença benigna.
6. A endometriose pode estimular a formação de novos vasos
Para se manter ativa, uma lesão precisa de nutrição e oxigênio. A endometriose pode estimular a formação de pequenos vasos sanguíneos ao redor das lesões, processo conhecido como angiogênese.
Esse mecanismo ajuda a sustentar a sobrevivência das células e pode contribuir para a manutenção da inflamação local.
7. As células podem resistir à morte programada
O corpo possui um mecanismo chamado apoptose, que funciona como uma morte programada para células que não deveriam continuar vivas.
Na endometriose, algumas células conseguem driblar esse processo, permanecendo ativas mesmo quando deveriam ser eliminadas. Esse comportamento ajuda a explicar a persistência da doença.
8. As lesões podem alterar sua forma de gerar energia
As células da endometriose também podem modificar seu metabolismo, usando caminhos de produção de energia que favorecem crescimento e sobrevivência.
Esse tipo de alteração metabólica é um dos pontos que aproximam a endometriose de mecanismos estudados no câncer, embora as duas doenças tenham comportamentos finais muito diferentes.

Então, endometriose pode virar câncer?
Na grande maioria dos casos, não.
A endometriose é uma doença benigna. A transformação maligna é considerada rara, estimada em aproximadamente 0,7% a 2,5% dos casos, mais frequentemente relacionada ao ovário.
A diferença fundamental é que, ao contrário do câncer, a endometriose não apresenta o mesmo crescimento descontrolado e a mesma perda de limites que caracterizam uma doença maligna.
Por isso, a mensagem principal é: a endometriose não é câncer, mas pode usar mecanismos semelhantes para crescer, infiltrar tecidos e se manter ativa.
Por que essa descoberta é importante?
Compreender esses mecanismos pode ajudar a medicina a desenvolver formas mais precisas de diagnóstico e tratamento.
Como há muito mais pesquisas sobre câncer do que sobre endometriose, estudar os pontos em comum entre as duas doenças pode abrir caminho para novas estratégias terapêuticas, como terapias-alvo, imunomodulação, antioxidantes e novas formas de entrega de medicamentos.
Na prática, isso significa que olhar para a endometriose como uma doença complexa, inflamatória e sistêmica pode melhorar o cuidado das pacientes e ampliar as possibilidades de tratamento no futuro.
A endometriose não é câncer. Mas entender por que ela pode se comportar de maneira invasiva ajuda a explicar sua complexidade.
Essa visão também reforça a importância de um diagnóstico cuidadoso, avaliação individualizada e tratamento planejado por profissionais com experiência em endometriose profunda e dor pélvica.
Mais do que tratar uma lesão isolada, o objetivo deve ser compreender como a doença impacta o corpo e a qualidade de vida da mulher como um todo.
Perguntas frequentes sobre endometriose e câncer
1. Endometriose é câncer?
Não. A endometriose é uma doença benigna. Ela pode compartilhar alguns comportamentos biológicos com células tumorais, mas não é considerada uma doença maligna.
2. Por que dizem que a endometriose se comporta como câncer?
Porque as lesões podem crescer, invadir tecidos vizinhos, estimular vasos sanguíneos e resistir a mecanismos naturais de eliminação celular. Esses comportamentos ajudam a explicar a complexidade da doença.
3. A endometriose pode virar câncer?
A transformação maligna é rara. Estima-se que ocorra em uma pequena parcela dos casos, geralmente relacionada ao ovário. A maioria das pacientes com endometriose nunca desenvolverá câncer por causa da doença.
4. Endometriose profunda é mais perigosa?
A endometriose profunda pode ser mais complexa porque pode infiltrar estruturas como intestino, bexiga, ureteres, ligamentos e nervos. Isso exige avaliação especializada e planejamento cuidadoso do tratamento.
5. Como a compreensão desses mecanismos pode ajudar no tratamento?
Entender os mecanismos celulares da endometriose pode abrir caminho para diagnósticos mais precoces, tratamentos individualizados e novas terapias no futuro.

Dr. Tiago Castilho
Cirurgião oncológico com atuação em cirurgia de endometriose profunda e oncologia ginecológica.
Atendimentos em Maringá-PR e online.
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