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Endometriose profunda e as marcas do câncer: por que a doença se comporta de forma tão agressiva?

Uma das perguntas mais frequentes que recebo no consultório é: “Doutor, a endometriose pode virar câncer?”. A resposta direta é não — a transformação maligna é extremamente rara. No entanto, a ciência tem revelado descobertas importantes sobre como essa doença atua no corpo da mulher.

Um artigo científico recente, publicado na revista Reproductive Sciences sob o título “Endometriosis and the Hallmarks of Cancer”, trouxe uma perspectiva reveladora. O estudo demonstra que a endometriose, apesar de ser uma condição benigna, compartilha todas as oito características fundamentais do câncer — os chamados hallmarks.

Essa descoberta nos ajuda a entender por que a endometriose consegue invadir órgãos vizinhos, causar dores tão intensas e exigir tratamentos cirúrgicos de alta complexidade. Neste artigo, explico de forma clara o que a ciência descobriu e o que isso significa para o seu tratamento.

 

O que são as marcas do câncer e como se relacionam com a endometriose?

Na oncologia, existem oito comportamentos celulares clássicos que definem como um tumor sobrevive e se espalha. O estudo de Ellis e Wood mapeou a literatura médica e confirmou que as células da endometriose exibem exatamente esses mesmos oito comportamentos.

Abaixo, detalho como a endometriose age no corpo utilizando essas táticas de sobrevivência.

  1. Multiplicação Acelerada (Hiperproliferação)

Assim como as células tumorais, as células da endometriose se multiplicam rapidamente. Elas conseguem produzir seu próprio estrogênio localmente, criando um ambiente hormonal favorável ao crescimento contínuo das lesões fora do útero.

  1. Resistência aos “Freios” do Corpo

O organismo utiliza a progesterona para frear o crescimento celular do endométrio. A endometriose, no entanto, desenvolve resistência a esse hormônio. Ela ignora os sinais de parada do corpo e continua a se expandir — o que explica por que muitos tratamentos hormonais convencionais falham em controlar a doença.

  1. Fuga do Sistema Imunológico

O sistema imunológico deveria identificar e eliminar células que estão fora do lugar correto. A endometriose, porém, cria um escudo inflamatório ao seu redor, reduzindo a capacidade do corpo de combater as lesões e garantindo sua própria sobrevivência no ambiente pélvico.

  1. Imortalidade Celular

Células normais envelhecem e morrem após um certo número de divisões. As células da endometriose ativam mecanismos que prolongam a vida útil de seus cromossomos — como a enzima telomerase — tornando-as praticamente imortais e permitindo que a doença persista por anos.

  1. Invasão de Outros Órgãos

A endometriose consegue alterar sua própria estrutura celular para se soltar e invadir tecidos vizinhos. É esse mecanismo que permite que a doença se infiltre no intestino, na bexiga, nos ureteres e nos nervos pélvicos — o que chamamos clinicamente de endometriose profunda.

  1. Criação de Vasos Sanguíneos (Angiogênese)

Para se manter viva e crescer, a doença precisa de oxigênio e nutrientes. Assim como um tumor, a endometriose é capaz de estimular a formação de seus próprios vasos sanguíneos, garantindo suprimento constante de energia.

  1. Resistência à Morte Celular

O corpo humano possui um mecanismo de autodestruição programada para células defeituosas, chamado apoptose. A endometriose produz proteínas que bloqueiam esse processo, recusando-se a morrer mesmo quando o corpo envia os sinais corretos.

  1. Metabolismo Alterado

Para sustentar todo esse crescimento e invasão, a endometriose altera seu próprio metabolismo, passando a consumir glicose de forma muito mais agressiva para gerar energia extra, mesmo em condições adversas.

 

A endometriose pode virar câncer?

Diante de todas essas semelhanças, é natural sentir preocupação. Mas a diferença fundamental é esta: a endometriose não é câncer.

A transformação de uma lesão de endometriose em tumor maligno é um evento extremamente raro, ocorrendo em menos de 1% das pacientes. A invasão da endometriose é controlada e não letal. Ela não possui o crescimento descontrolado nem as mutações genéticas severas que caracterizam uma doença maligna. A endometriose causa dor e perda de qualidade de vida, mas não ameaça a vida da mesma forma que um câncer.

 

Como o comportamento invasivo da endometriose profunda afeta o tratamento?

Entender que a endometriose possui um comportamento tão complexo muda completamente a forma como devemos encará-la. Uma doença com essas características não pode ser tratada de forma superficial.

Para casos de endometriose profunda, onde a doença já invadiu órgãos como intestino e bexiga, o tratamento exige precisão cirúrgica absoluta. É por isso que a videolaparoscopia avançada e a cirurgia robótica são os padrões-ouro. Essas tecnologias permitem visualizar as lesões com riqueza de detalhes e removê-las completamente, preservando a função dos órgãos e devolvendo a qualidade de vida à paciente.

Se você sofre com cólicas intensas, dor na relação sexual, alterações intestinais ou urinárias durante o período menstrual, não normalize a sua dor. A endometriose é uma doença complexa, mas com o tratamento especializado correto, é possível viver sem dor.

 

Perguntas Frequentes sobre Câncer e Endometriose

1. A endometriose pode se transformar em câncer?
A transformação maligna é extremamente rara, ocorrendo em menos de 1% das pacientes. Embora a endometriose compartilhe mecanismos celulares com o câncer — como invasão de tecidos e resistência ao sistema imunológico — ela não apresenta as mutações genéticas severas que caracterizam uma doença maligna. A preocupação é legítima, mas a endometriose é uma condição benigna.

2. Por que a endometriose consegue invadir o intestino e a bexiga?
A endometriose profunda é capaz de alterar sua própria estrutura celular para se soltar e infiltrar tecidos vizinhos — o mesmo mecanismo de invasão observado em tumores. É esse comportamento que permite que as lesões atinjam o intestino, a bexiga, os ureteres e os nervos pélvicos, exigindo planejamento cirúrgico especializado para a remoção completa.

3. Por que os tratamentos hormonais nem sempre funcionam para a endometriose?
A endometriose desenvolve resistência à progesterona — hormônio que normalmente freia o crescimento celular do endométrio. Além disso, as lesões produzem estrogênio localmente, criando um ambiente favorável ao próprio crescimento. Esse comportamento explica por que parte das pacientes não responde satisfatoriamente aos tratamentos hormonais convencionais e pode necessitar de avaliação cirúrgica.

4. A endometriose profunda é mais grave do que a endometriose superficial?
Sim. Na endometriose profunda, as lesões infiltram as camadas mais profundas dos órgãos pélvicos e abdominais, comprometendo sua função. Esse grau de acometimento está associado a sintomas mais intensos, maior impacto na qualidade de vida e necessidade de tratamento cirúrgico de maior complexidade técnica.

5. A cirurgia robótica é indicada para endometriose profunda?
A cirurgia robótica e a videolaparoscopia avançada são atualmente os padrões-ouro para o tratamento cirúrgico da endometriose profunda. Essas tecnologias permitem visualizar as lesões com alto nível de detalhe e removê-las com precisão, preservando a função dos órgãos afetados e reduzindo o risco de complicações.

 

Referências
Ellis, K., & Wood, R. (2026). Endometriosis and the Hallmarks of Cancer. Reproductive Sciences, 33, 32–46. https://doi.org/10.1007/s43032-025-02024-0

 


Dr. Tiago Castilho

Cirurgião oncológico com atuação em cirurgia de endometriose profunda e oncologia ginecológica.
Atendimentos em Maringá-PR e online.

CRM-PR 22590  |  RQE 2911  |  RQE 844

 

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