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Mounjaro e endometriose: o que a ciência sabe até agora

O Mounjaro — nome comercial da tirzepatida — ganhou notoriedade pelo uso no diabetes tipo 2 e no manejo do peso. Nos últimos meses, porém, uma pergunta passou a circular tanto em publicações científicas quanto nos consultórios: medicamentos dessa classe poderiam ter algum papel na endometriose?

A resposta precisa começar pelo limite. A tirzepatida não é um tratamento aprovado para endometriose, e não existe nenhum estudo clínico randomizado avaliando seu uso na doença. O que existe é uma hipótese em investigação — e ela nasce de uma mudança importante na forma como a medicina entende a endometriose hoje: menos como um problema exclusivamente hormonal e mais como uma condição também inflamatória e metabólica. É essa convergência que explica por que um medicamento metabólico entrou no radar da pesquisa em endometriose.

 

Endometriose não é apenas uma doença hormonal

A endometriose afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva — no Brasil, estima-se mais de 7 milhões de casos. Por muito tempo ela foi explicada sobretudo como uma doença estrogênio-dependente e, de fato, os hormônios têm papel central na manutenção das lesões e dos sintomas.

O entendimento atual, no entanto, é mais amplo. Além do componente hormonal, a endometriose envolve inflamação crônica, alteração da resposta imune e, em parte das pacientes, repercussões metabólicas — incluindo associação com resistência à insulina, obesidade e síndrome dos ovários policísticos (SOP). Estudos mostram que mulheres com endometriose apresentam taxas mais altas de síndrome metabólica e resistência à insulina do que a população geral, mesmo quando se ajusta o peso corporal. Em muitos casos, portanto, a endometriose se comporta como uma doença sistêmica, e não como uma condição restrita à pelve.

 

O que é o Mounjaro (tirzepatida)?

O Mounjaro é uma medicação injetável cujo princípio ativo é a tirzepatida. Ele foi desenvolvido primeiro para o diabetes tipo 2 e, depois, para o manejo do peso. Sua principal novidade farmacológica é ser o primeiro agonista duplo dos receptores GIP e GLP-1, dois hormônios intestinais que regulam a glicose, a insulina, o apetite e o gasto de energia após as refeições.

Na prática, esse mecanismo duplo melhora a sensibilidade à insulina, aumenta a saciedade, retarda o esvaziamento gástrico e favorece perda de peso — de 15% a 20% do peso corporal nas doses mais altas, chegando a cerca de 19,5% em um dos principais estudos. Mais recentemente, chamou atenção um efeito que vai além do metabolismo: em pacientes com diabetes e obesidade, medicamentos dessa classe reduziram marcadores inflamatórios como proteína C-reativa, IL-6 e TNF-α. É esse perfil anti-inflamatório, somado à ação metabólica, que aproxima a tirzepatida do debate sobre endometriose.

 

Por que a tirzepatida entrou no radar da endometriose?

A conexão surge porque endometriose e tirzepatida cruzam as mesmas vias — inflamatórias e metabólicas. Isso não significa que toda paciente com endometriose tenha alteração metabólica, nem que a doença deva ser tratada com medicamentos para diabetes ou obesidade. Significa que, para subgrupos específicos, investigar terapias metabólicas passou a fazer sentido do ponto de vista científico. Quatro caminhos ajudam a entender por quê.

1. O primeiro é a resistência à insulina. O excesso de insulina circulante pode favorecer processos como proliferação celular, formação de vasos e inflamação — um ambiente potencialmente relacionado à sobrevivência das lesões. Como a tirzepatida melhora a sensibilidade à insulina, existe a hipótese de que ela possa modular esse ambiente em algumas pacientes. É apenas uma hipótese: não há comprovação de que a medicação reduza lesões de endometriose.

2. O segundo é a obesidade e o tecido adiposo. A gordura corporal não é um depósito inerte; funciona como um órgão endócrino que produz substâncias ligadas à inflamação e ao metabolismo hormonal, incluindo a produção periférica de estrogênio. A perda de peso associada à tirzepatida pode, em teoria, reduzir a inflamação crônica de baixo grau e reequilibrar parte desse cenário — outro ponto que desperta interesse de pesquisa.

3. O terceiro é a inflamação crônica, uma marca da endometriose. O ambiente inflamatório contribui para a dor, para a sobrevivência das lesões e para alterações imunológicas. Como os agonistas de GLP-1 vêm sendo estudados por efeitos anti-inflamatórios, pesquisadores passaram a observar sua possível relevância em doenças inflamatórias — a endometriose entre elas.

4. O quarto envolve as vias hormonais e reprodutivas. Receptores ligados ao GLP-1 estão presentes em tecidos como ovário, endométrio e placenta, o que levanta perguntas sobre ovulação, fertilidade e receptividade endometrial. Em mulheres com SOP, a melhora metabólica pode se associar à recuperação da função ovulatória — fenômeno já observado, inclusive, em gestações inesperadas relatadas em usuárias desses medicamentos. Justamente por atuar em tecidos reprodutivos, porém, esse é também o ponto que exige mais cautela.

 

O que as evidências mostram e o que ainda não sabemos

Os estudos mais sólidos sobre a tirzepatida foram feitos em diabetes tipo 2 e obesidade, e demonstraram efeitos consistentes sobre o controle da glicose e a perda de peso. Para a endometriose, o cenário é diferente: não há ensaios clínicos randomizados testando o Mounjaro na doença. As discussões atuais se apoiam em plausibilidade biológica, em dados de condições metabólicas relacionadas, na experiência com outras classes de medicamentos — como os agonistas PPARγ, que em uma série de casos mostraram melhora de sintomas dolorosos — e em relatos isolados de pacientes. Relatos de melhora de sintomas, como distensão abdominal e crises de dor, podem gerar hipóteses, mas não substituem estudos bem desenhados.

Há também questões de segurança que não podem ser ignoradas. A tirzepatida pode causar efeitos gastrointestinais — náusea, constipação e retardo do esvaziamento gástrico — que, em uma paciente com endometriose, podem se confundir com os próprios sintomas intestinais da doença. Sabe-se ainda que a medicação pode interferir na absorção de contraceptivos orais, que costuma exigir suspensão antes de uma tentativa de gravidez e que os dados de segurança reprodutiva de longo prazo, no contexto da endometriose, ainda são insuficientes.

 

Afinal, Mounjaro trata endometriose?

Hoje, a Tizerpatida não é um tratamento aprovado para endometriose. A tirzepatida é indicada para condições metabólicas específicas — como diabetes tipo 2 e manejo do peso — sempre sob avaliação médica individualizada. O que existe é uma linha de pesquisa promissora: a possibilidade de que, no futuro, intervenções metabólicas ajudem subgrupos de pacientes, sobretudo aquelas com endometriose associada a resistência à insulina, SOP, obesidade ou síndrome metabólica.

Para quem convive com a doença, a mensagem mais importante é de prudência: não se deve iniciar medicação por conta própria nem substituir tratamentos já estabelecidos sem orientação. O cuidado da endometriose é individualizado e considera sintomas, exames, desejo reprodutivo, histórico clínico e a presença — ou não — de alterações metabólicas. Em medicina, uma hipótese promissora só se torna recomendação segura depois de passar por estudos rigorosos.

 

 

Perguntas frequentes sobre Mounjaro e endometriose

1. Mounjaro pode tratar endometriose?
Até o momento, não. O Mounjaro (tirzepatida) não é um tratamento aprovado para endometriose. Existe uma hipótese científica sobre possíveis relações entre metabolismo, inflamação e a doença, que ainda precisa ser confirmada em ensaios clínicos específicos.

2. Qual a relação entre tirzepatida e endometriose?
A tirzepatida atua em vias metabólicas ligadas à insulina, ao peso, à saciedade e à inflamação. Como a endometriose também pode envolver inflamação crônica e alterações metabólicas em parte das pacientes, pesquisadores discutem se essa classe de medicamentos teria alguma relevância futura para subgrupos específicos.

3. Quem tem endometriose pode usar Mounjaro?
Depende. A endometriose, por si só, não indica o uso de Mounjaro. Em pacientes que também apresentam obesidade, resistência à insulina, SOP ou síndrome metabólica, pode haver justificativa para discutir esse tipo de tratamento com o médico — sempre de forma individualizada, avaliando riscos, benefícios, contraindicações, desejo gestacional e interações com outros tratamentos.

4. Mounjaro melhora a dor da endometriose?
Ainda não há comprovação. Existem relatos de melhora de sintomas em pacientes que usam medicamentos dessa classe por outras indicações, mas relatos individuais não bastam para estabelecer eficácia sobre a dor da endometriose.

5. É seguro usar tirzepatida tentando engravidar?
Essa decisão precisa ser individualizada com o médico. Há preocupações sobre segurança reprodutiva, interferência na absorção de contraceptivos orais e necessidade de suspensão antes da concepção. Mulheres que desejam engravidar não devem usar a medicação sem orientação especializada.

Converse com quem cuida da endometriose de forma individualizada
Se você convive com endometriose e quer entender como fatores metabólicos podem se relacionar ao seu caso, a avaliação individualizada é o caminho mais seguro — cada paciente exige uma conduta própria.

 

 

Dr. Tiago Castilho

Cirurgião oncológico com atuação em cirurgia de endometriose profunda e oncologia ginecológica.
Atendimentos em Maringá-PR e online.

CRM-PR 22590  |  RQE 2911  |  RQE 844

 

Referências

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