Endometriose Profunda · Câncer Ginecológico · Programa Cuidado 360°

Por que algumas mulheres sentem mais dor durante a menstruação do que outras?

É muito comum conversar com amigas ou familiares e perceber o quanto a experiência do período menstrual muda de pessoa para pessoa. Enquanto algumas mulheres passam pelos dias de ciclo apenas com um leve incômodo passageiro, outras enfrentam episódios de dor tão intensos que chegam a interromper a rotina — impedindo o trabalho, os estudos ou momentos simples de lazer.

Essa disparidade costuma gerar uma dúvida frequente: por que o corpo reage de maneiras tão distintas a um processo biológico que todas compartilham?

Compreender o que é esperado no ciclo e quais fatores influenciam a intensidade do desconforto é o primeiro passo para parar de aceitar a dor forte como algo inevitável.

O mecanismo da cólica: o que acontece no corpo?

Para entender por que a dor varia tanto, é preciso olhar para a fisiologia do ciclo. Durante a menstruação, o útero precisa se contrair para eliminar o endométrio — o tecido que se prepara mês a mês dentro do órgão para receber uma gestação.

Essas contrações uterinas são provocadas pela liberação de substâncias inflamatórias chamadas prostaglandinas. A intensidade do desconforto depende diretamente de como essas substâncias atuam em cada organismo:

  • Níveis de prostaglandina: Mulheres que produzem uma quantidade maior dessas substâncias tendem a apresentar contrações uterinas mais fortes e frequentes, resultando em dores mais acentuadas.
  • Sensibilidade e limiar neurológico: A forma como o sistema nervoso processa os sinais dolorosos varia de indivíduo para indivíduo.
  • Fatores de estilo de vida e estresse: Sono desregulado, estresse crônico, sedentarismo e uma alimentação com alto teor de ultraprocessados podem amplificar a resposta inflamatória do organismo.

Quando a dor menstrual deixa de ser normal?

Sentir uma leve pressão ou um desconforto moderado nos primeiros dias de fluxo, que melhora facilmente com repouso ou analgésicos simples, é uma manifestação frequente. No entanto, sentir uma dor incapacitante nunca deve ser considerado apenas “parte da vida da mulher”.

A dor precisa de uma avaliação médica atenta e individualizada quando apresenta os seguintes sinais de alerta:

  • Não responde ou cede pouco com o uso de medicamentos convencionais.
  • É forte o suficiente para fazer você faltar ao trabalho, aula ou compromissos.
  • Apresenta piora progressiva com o passar dos meses ou anos.
  • Vem acompanhada de dor profunda durante as relações sexuais, ao urinar ou ao evacuar no período menstrual.
  • Provoca tonturas, náuseas intensas, episódios de vômito ou desmaios.

O que pode estar por trás de dores menstruais intensas?

Quando as cólicas ultrapassam o limite do suportável, o sistema reprodutivo pode estar sinalizando a presença de alterações ou condições ginecológicas específicas. As principais causas incluem:

Dismenorreia Primária

Ocorre quando a dor é decorrente do excesso de produção de prostaglandinas no útero, sem que haja qualquer alteração anatômica ou doença estrutural visível nos exames.

Endometriose

Condição em que tecidos semelhantes ao endométrio crescem fora da cavidade uterina (como nos ovários, tubas uterinas, intestino ou peritônio). Esse tecido responde aos estímulos hormonais e gera um processo inflamatório crônico e persistente, sendo uma das causas mais frequentes de dores intensas e progressivas.

Adenomiose

Caracteriza-se pela infiltração do tecido endometrial no interior da camada muscular do próprio útero (o miométrio). Além de cólicas fortes, costuma provocar aumento do volume uterino e sangramentos muito abundantes.

Miomas e Pólipos Uterinos

Nódulos benignos que se desenvolvem na musculatura ou na cavidade do útero. A depender de sua localização e tamanho, podem dificultar a contração uterina normal e aumentar consideravelmente a dor e o fluxo.

Como investigar e encontrar o tratamento adequado

O caminho para o alívio começa ao não normalizar o sofrimento mensal. Anotar em um aplicativo ou diário a intensidade da dor, os dias de fluxo e os sintomas associados ajuda muito no momento da consulta.

A investigação médica exige uma anamnese detalhada, exame físico rigoroso e, quando necessário, exames de imagem direcionados — como a ultrassonografia com preparo intestinal ou a ressonância magnética pélvica.

O tratamento é individualizado. Ele pode ir desde adaptações na rotina, suporte nutricional e fisioterapia pélvica até o uso de medicações hormonais ou procedimentos cirúrgicos minuciosos, dependendo do diagnóstico preciso de cada paciente.

Perguntas frequentes sobre dor na menstruação

1. Sentir dor muito forte na menstruação é sempre sinal de endometriose?

Não necessariamente. A endometriose é uma causa importante, mas dores intensas também podem decorrer de adenomiose, miomas, infecções pélvicas ou dismenorreia primária. Apenas a investigação médica com exames adequados pode confirmar a origem.

2. Tomar remédio para cólica todo mês pode fazer mal?

O uso pontual de analgésicos sob orientação é seguro. Porém, depender de altas doses de anti-inflamatórios todos os meses para conseguir trabalhar ou cumprir a rotina pode sobrecarregar os rins e o estômago, além de mascarar um problema que precisa de diagnóstico.

3. A dor menstrual tende a diminuir após a gravidez ou com a idade?

Para algumas mulheres com dismenorreia primária, a dor pode amenizar após o parto devido a alterações no colo uterino e na terminação nervosa. Contudo, se houver uma doença subjacente como a endometriose, a dor geralmente persiste ou retorna após a amamentação.

4. Exercício físico realmente ajuda a aliviar as cólicas?

Sim. A prática regular de atividades físicas estimula a liberação de endorfinas (que atuam como analgésicos naturais), melhora a circulação sanguínea pélvica e ajuda a reduzir os níveis gerais de inflamação no corpo.

5. O uso de anticoncepcional é a única forma de tratar cólicas fortes?

Não. Os métodos hormonais ajudam a bloquear ou reduzir o fluxo e as contrações, mas o tratamento ideal depende da causa da dor. Em muitos casos, mudanças alimentares, fisioterapia pélvica e tratamentos cirúrgicos específicos são necessários.

6. Quando devo procurar um especialista para investigar a dor?

Você deve buscar atendimento sempre que a dor atrapalhar sua qualidade de vida, não melhorar com remédios simples ou vier acompanhada de outros sintomas, como dor no sexo ou alterações intestinais durante a menstruação.

Busque uma avaliação individualizada

Se você convive com dores intensas no período menstrual e sente que suas queixas têm sido minimizadas, saiba que sentir dor forte não é normal. Uma investigação médica detalhada e individualizada é a chave para identificar a causa e devolver sua qualidade de vida.

Dr. Tiago Castilho

Um grande abraço,

Dr. Tiago Castilho
Cirurgião oncológico com atuação em cirurgia de endometriose profunda e oncologia ginecológica.
Atendimentos em Maringá-PR e online.
CRM-PR 22590  |  RQE 2911  |  RQE 844

Referências

  • Bernardi LA, et al. Dysmenorrhea and Pelvic Pain in Reproductive Age. Obstet Gynecol Clin North Am. 2022.
  • Barcikowska Z, et al. Inflammatory Markers and Prostaglandins in Primary Dysmenorrhea. Int J Environ Res Public Health. 2020.
  • Zondervan KT, et al. Endometriosis. N Engl J Med. 2020.
  • Chapron C, et al. Diagnosis and management of endometriosis. Nat Rev Endocrinol. 2019.
  • Vannuccini S, et al. Pathophysiology of adenomyosis: an update. Fertil Steril. 2021.
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