Esta é uma das perguntas que mais escuto de pacientes que chegam ao consultório com medo, muitas vezes após pesquisar na internet: “Doutor, a endometriose pode me matar?”
A resposta honesta e baseada na medicina é clara:
Endometriose não é câncer e não mata diretamente. Porém, a forma profunda da doença pode comprometer órgãos vitais e, se não tratada adequadamente, trazer complicações graves que afetam profundamente a saúde e a qualidade de vida.
Sou Tiago Castilho, cirurgião oncológico com atuação em cirurgia de endometriose por videolaparoscopia convencional e robótica, e vou explicar o que a ciência diz sobre os riscos reais da doença — e por que, em alguns casos, a intervenção cirúrgica se torna essencial.
Afinal, a endometriose é perigosa?
A endometriose é uma doença inflamatória crônica em que o tecido semelhante ao endométrio (camada interna do útero) cresce fora do útero. Existem diferentes formas e estágios da doença, e nem todos representam o mesmo nível de risco. A classificação mais recente da ESHRE (European Society of Human Reproduction and Embryology) reconhece que a gravidade da endometriose deve ser avaliada não apenas pela extensão anatômica, mas também pelo impacto nos sintomas e na função dos órgãos acometidos.
A preocupação maior está na endometriose profunda (também chamada de infiltrativa), definida como aquela que penetra mais de 5 milímetros abaixo da superfície peritoneal. Essa forma da doença pode atingir estruturas como o intestino (reto, sigmóide e apêndice), os ureteres (tubos que conduzem a urina dos rins à bexiga), a bexiga, além de ligamentos e nervos pélvicos. Quando essas estruturas são comprometidas, o funcionamento do organismo pode ser afetado de forma significativa e, em alguns casos, irreversível.
Quais são os riscos reais da endometriose profunda?
Embora a endometriose não seja uma neoplasia maligna, a versão profunda da doença pode causar complicações sérias que exigem atenção médica especializada.
- Obstrução intestinal. Lesões extensas no intestino podem causar estreitamento progressivo da luz do órgão, levando a dificuldade para evacuar, distensão abdominal, alteração do hábito intestinal e, em casos extremos, obstrução intestinal que pode requerer cirurgia de urgência. A endometriose intestinal acomete entre 5% e 12% das pacientes com a doença, sendo o retossigmóide o segmento mais frequentemente envolvido.
- Comprometimento dos ureteres. A doença pode envolver os ureteres de forma silenciosa, sem causar sintomas evidentes nas fases iniciais. Quando o ureter é comprimido ou infiltrado pela endometriose, ocorre dilatação progressiva do sistema coletor renal (hidronefrose). Se não identificada e tratada a tempo, essa condição pode levar à perda irreversível da função renal do lado acometido. Estudos recentes identificaram fatores de risco para essa complicação grave, reforçando a importância do mapeamento pré-operatório detalhado.
- Dor crônica incapacitante. A dor pélvica contínua é um dos sintomas mais debilitantes da endometriose profunda. Ela pode afetar a qualidade de vida, o desempenho profissional, os relacionamentos interpessoais e a saúde mental. Muitas pacientes desenvolvem quadros de ansiedade e depressão associados à dor crônica não tratada.
- Infertilidade. A endometriose é uma das principais causas de dificuldade para engravidar, estando presente em até 50% das mulheres com infertilidade. A doença pode comprometer a fertilidade por diversos mecanismos: alteração da anatomia pélvica, inflamação crônica, disfunção ovariana e comprometimento da qualidade dos óvulos. A cirurgia, em muitos casos, pode restaurar a fertilidade e melhorar as taxas de gestação espontânea ou assistida.
Quando a cirurgia se torna vital?A cirurgia de endometriose é indicada quando o tratamento clínico (medicamentos, hormônios) não controla adequadamente os sintomas, quando há comprometimento de órgãos como intestino, ureteres ou bexiga, quando existe risco de perda de função de um órgão (como o rim por hidronefrose) ou quando a paciente deseja engravidar e a doença está impedindo a fertilidade. Nesses cenários, a intervenção cirúrgica não é apenas uma opção — é uma necessidade para preservar a saúde e a qualidade de vida .A literatura científica demonstra que a cirurgia para endometriose profunda, quando realizada por equipe experiente e com planejamento adequado, melhora significativamente a qualidade de vida das pacientes, com impacto positivo na dor, na função intestinal, na função urinária e na fertilidade.
A importância do cirurgião especializado
A cirurgia de endometriose profunda não é um procedimento simples. Ela exige um mapeamento pré-operatório detalhado, realizado por meio de ultrassom transvaginal com preparo intestinal e/ou ressonância magnética pélvica, para definir com precisão a extensão e a localização de todas as lesões. A técnica de excisão completa das lesões — e não apenas cauterização superficial — é fundamental para reduzir as taxas de recidiva e melhorar os resultados a longo prazo.
A preservação de nervos e estruturas nobres durante a dissecção pélvica é essencial para manter as funções urinária, intestinal e sexual da paciente. Quando a doença envolve múltiplos órgãos, uma equipe multidisciplinar — incluindo urologia e proctologia — pode ser necessária para garantir que todas as lesões sejam abordadas de forma segura e completa.
A formação em cirurgia oncológica proporciona expertise em dissecação de pelve e manejo de casos complexos — habilidades fundamentais para tratar a endometriose infiltrativa com segurança e eficácia.
Quer entender se o seu caso precisa de intervenção cirúrgica? Agende uma consulta para avaliarmos juntos o mapeamento e a melhor estratégia para o seu tratamento.
Dr. Tiago Castilho
Cirurgião oncológico com atuação em cirurgia de endometriose.
Atendimentos em Maringá-PR e online.
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Perguntas Frequentes (FAQ)
1- Endometriose pode virar câncer?A endometriose não é câncer. Embora estudos epidemiológicos mostrem uma associação estatística rara com alguns tipos de câncer ovariano (especialmente o carcinoma de células claras e o endometrióide), essa transformação maligna é incomum e não deve ser motivo de pânico. O acompanhamento regular com seu ginecologista é a melhor forma de monitorar a doença.
2- Toda endometriose precisa de cirurgia?Não. Casos leves ou moderados podem ser controlados com medicamentos hormonais, como anticoncepcionais, progestágenos ou análogos do GnRH. A cirurgia é reservada para casos com comprometimento de órgãos, falha do tratamento clínico, desejo de fertilidade ou sintomas incapacitantes que não respondem ao tratamento medicamentoso.
3- Como saber se tenho endometriose profunda?O diagnóstico é feito através de exames de imagem especializados. O ultrassom transvaginal com preparo intestinal, realizado por profissional experiente, é considerado o exame de primeira linha. A ressonância magnética pélvica com protocolo específico para endometriose é outro exame importante, especialmente para avaliar a extensão da doença em locais de difícil acesso [9].
4- A cirurgia de endometriose é arriscada?Toda cirurgia tem riscos inerentes. No entanto, quando realizada por equipe experiente, com planejamento pré-operatório adequado e em centro de referência, a cirurgia de endometriose profunda apresenta bons resultados e taxas de complicações aceitáveis. A decisão cirúrgica deve sempre ponderar os riscos do procedimento contra os riscos de não tratar a doença [10].
