Endometriose é uma doença crônica e, em muitos casos, cirurgia pode ser a melhor etapa do tratamento, mas não para todo mundo e nem a qualquer custo.
Recebo, diariamente, pacientes de diferentes cidades principalmente Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e algumas pacientes que moram fora do Brasil (Inglaterra, Nova Zelândia, Israel, Portugal) que buscam uma resposta objetiva para a pergunta: “eu preciso operar?”
A decisão cirúrgica habitualmente baseia-se em um tripé:
- Sintomas e impacto na vida (dismenorréia, dispareunia profunda, disquezia, sangramento uterino anormal, infertilidade)
- Tipo e localização da doença (superficial, profunda, comprometimento de múltiplos órgãos – intestino, bexiga, útero)
- Objetivo da paciente (controle de dor, fertilidade, preservação de órgãos).
Diretrizes recentes reforçam a importância de uma avaliação cuidadosa e mudaram a forma como encaramos diagnóstico e estratégia terapêutica ao longo do tempo.
____________________________________________________
O que a cirurgia de endometriose pode (e o que não pode) fazer?
O que a cirurgia faz bem
- Remove lesões visíveis (principalmente quando há endometriose profunda e/ou acometimento de órgãos).
- Melhora sintomas estruturais: por exemplo, quando há endometriose profunda que compromete vagina, intestino e/ou bexiga.
- Restaura a anatomia da pelve distorcida pela endometriose infiltrativa.
O que a cirurgia não deve prometer
- “Cura definitiva para todas as pacientes” (endometriose é crônica e pode recidivar).
- “Dor zero garantida”: dor pélvica pode ter múltiplas camadas (inflamatória, muscular, neuropática).
- “Fertilidade garantida”: depende de idade, reserva ovariana, fator masculino e outras variáveis.
____________________________________________________
Quando a cirurgia de endometriose costuma ser indicada?
A indicação é individual, mas existem cenários em que a cirurgia torna-se necessária como estratégia.
1) Dor importante que não responde (ou não tolera) tratamento clínico. Ou seja, quando a paciente:
- já tentou abordagem clínica adequada (analgésicos, anticoncepcionais etc.), sem controle satisfatório, ou
- tem contraindicações/intolerância, ou
- não quer usar hormônios por objetivo reprodutivo imediato,
A cirurgia pode ser considerada como parte do plano de tratamento. Diretrizes e revisões reconhecem que a cirurgia pode ter benefício, mas a qualidade de evidência varia por desfecho e cenário clínico.
2) Suspeita/diagnóstico de endometriose profunda, que pode envolver:
- ligamentos uterossacros e compartimento posterior (área entre útero e intestino),
- intestino (especialmente reto/sigmoide),
- bexiga e ureteres.
Nesses casos, a cirurgia não é “só tirar pontinhos”, é uma cirurgia de planejamento, equipe e execução precisa.
3) Sinais de comprometimento de órgão (alertas cirúrgicos)
- alterações urinárias + suspeita de ureter envolvido (risco de obstrução silenciosa de ureteres levando a perda de função renal),
- sintomas intestinais cíclicos importantes (dor ao evacuar, sangramento retal cíclico, mudança de hábito intestinal – diarreia/constipação),
- dor incapacitante progressiva, com achados de imagem compatíveis.
4) Endometrioma (cisto de endometriose no ovário) em cenários específicos. Nem todo endometrioma deve ser operado imediatamente. A decisão pesa quando há:
- dor,
- tamanho (acima de 5cm e evolução),
- suspeita de outras patologias,
- plano de gravidez,
- risco à reserva ovariana (isso é central).
Mesmo documentos clássicos de guideline reforçam que a cirurgia ovariana deve ser bem indicada para evitar prejuízo de tecido saudável.
5) Infertilidade: quando a cirurgia de endometriose pode ser parte do caminho
Em infertilidade, a decisão é ainda mais personalizada. Há evidências de melhora em alguns desfechos reprodutivos em cenários selecionados, mas não existe uma regra única. Tenho paciente que engravidou de gêmeos após a cirurgia, e que antes, tinha caso de infertilidade. Isso não é uma promessa, varia de pessoa para pessoa, mas é sempre bom avaliar.
____________________________________________________
Quando eu penso em NÃO operar (ou adiar):
- sintomas estão controlados por meio de medicamentos e qualidade de vida está boa,
- achados são mínimos e o risco cirúrgico supera o benefício esperado,
- há forte componente de dor miofascial/neuropática predominante e a endometriose não está infiltrando a principal origem (ex. nervo ciático, raízes sacrais, nervo obturatório, nervo pudendo),
- falta mapeamento adequado por imagem (operar “no escuro” é um erro).
O que eu, como médico cirurgião, avalio antes de indicar cirurgia de endometriose:
1) Objetivo principal: dor? fertilidade? preservação de órgão?
2) Mapeamento por imagem: ultrassom de rastreamento para endometriose, ressonância magnética de pelve.
3) Complexidade cirúrgica: preciso de equipe multidisciplinar (coloprocto/urologia)?
4) Risco/benefício individual: comorbidades, cirurgias prévias, idade, reserva ovariana.
5) Plano pós-operatório: acompanhamento e prevenção de recidiva quando aplicável.
É sempre bom você ter em mente que a cirurgia para endometriose não é “último recurso” nem “solução mágica”. Ela é uma ferramenta potente quando existe indicação correta, planejamento, execução por equipe experiente e objetivo claro.
Se você é do Paraná, outros estados e até países estrangeiros – e quer uma avaliação sobre indicação cirúrgica ou não para o seu caso, é possível organizar uma consulta voltada ao mapeamento e planejamento do tratamento.
Abaixo, deixo algumas orientações que você deveria fazer já na sua primeira consulta:
- Qual é o objetivo da cirurgia no meu caso?
- Quais locais estão acometidos? (baseado em imagem)
- Qual técnica será usada (laparoscopia/robótica)?
- Existe chance de precisar de equipe intestinal/urológica?
- Quais riscos mais relevantes para mim?
- Como será meu pós-operatório e acompanhamento?
