Quando o diagnóstico de endometriose profunda é confirmado, surge uma decisão crucial: com quem operar? A escolha do cirurgião pode definir o sucesso do tratamento, a preservação das funções dos seus órgãos e a sua qualidade de vida no longo prazo. Essa não é uma decisão que deva ser tomada com pressa, pois a cirurgia de endometriose profunda exige habilidades técnicas que vão além da ginecologia convencional — e é aí que a formação em oncologia faz a diferença.
Sou Tiago Castilho, cirurgião oncológico com atuação em cirurgia de endometriose por videolaparoscopia convencional e por plataforma robótica, e neste artigo explico por que essa especialização é relevante para casos complexos.
O que é a endometriose profunda?
A endometriose profunda (ou infiltrativa) é a forma mais agressiva da doença. Segundo a definição aceita internacionalmente, trata-se de implantes endometrióticos que penetram mais de 5 milímetros abaixo da superfície peritoneal, infiltrando os tecidos de forma semelhante ao comportamento de lesões invasivas. Essas lesões podem atingir estruturas anatômicas complexas, como os ligamentos uterossacros e paramétrios, o septo retovaginal, a parede do reto e sigmóide, os ureteres, a bexiga e os nervos pélvicos (plexo hipogástrico inferior).
Essas lesões não são superficiais. Elas se comportam de forma invasiva, criando aderências densas e distorcendo a anatomia pélvica normal. Por isso, exigem uma abordagem cirúrgica meticulosa, com técnica refinada e conhecimento profundo da anatomia regional — características que definem a formação do cirurgião oncológico.
Por que a técnica oncológica é um diferencial?
A cirurgia oncológica treina o profissional para operar em territórios anatômicos complexos, onde a margem de erro é mínima e a preservação funcional é tão importante quanto a remoção completa da doença. Essa formação se traduz em competências específicas que são diretamente aplicáveis à cirurgia de endometriose profunda.
Dissecação de planos anatômicos. A formação oncológica ensina a identificar e separar camadas de tecido com precisão milimétrica, mesmo quando a anatomia está distorcida por aderências e fibrose. Essa habilidade é essencial para remover lesões de endometriose que envolvem intestino, ureteres e nervos sem causar danos colaterais às estruturas adjacentes.
Preservação de estruturas nobres. Na cirurgia oncológica, aprendemos a ressecar tumores preservando funções — o conceito de cirurgia “nerve-sparing” (preservadora de nervos). Essa mesma técnica se aplica à endometriose: remover a doença protegendo a função intestinal, urinária e sexual da paciente. Publicações recentes reforçam que a preservação nervosa sistemática durante a cirurgia de endometriose profunda melhora significativamente os desfechos urinários e sexuais no pós-operatório.
Manejo de casos complexos. Pacientes com endometriose em múltiplos órgãos precisam de um cirurgião preparado para lidar com cenários inesperados durante o procedimento. A formação oncológica proporciona experiência em situações de alta complexidade, como dissecção em pelve congelada, identificação de planos em tecidos fibróticos e tomada de decisão intraoperatória em tempo real.
Técnica de excisão completa. Enquanto a ablação (cauterização) apenas queima a superfície das lesões, a excisão remove a doença por completo, incluindo as camadas mais profundas de infiltração. Essa abordagem reduz significativamente as chances de recidiva e proporciona melhor controle dos sintomas a longo prazo. A diretriz da ESHRE recomenda a excisão como técnica preferencial para endometriose profunda.
O papel da equipe multidisciplinar
Em casos de doença avançada com envolvimento de múltiplos órgãos, a cirurgia pode exigir a participação de diferentes especialistas. O proctologista ou coloproctologista atua nas ressecções intestinais (shaving, ressecção discoide ou segmentar), o urologista participa quando há necessidade de reimplante de ureter, ureterólise ou ressecção parcial de bexiga, e o anestesiologista especializado garante a segurança em procedimentos longos e complexos.
O cirurgião oncológico atua como coordenador dessa equipe, garantindo que todas as lesões sejam abordadas em um único procedimento cirúrgico — a estratégia mais eficaz para resultados duradouros. A abordagem em tempo único evita múltiplas cirurgias, reduz o tempo total de recuperação e diminui os riscos associados a procedimentos repetidos. Estudos demonstram que os melhores resultados clínicos são obtidos quando a cirurgia é realizada por equipes multidisciplinares experientes em centros de referência.
Importante destacar: o cirurgião oncológico não é responsável por realizar o diagnóstico da doença, esta é a função do seu ginecologista. Normalmente, as pacientes que atendo já passaram com esse profissional e vêm encaminhadas pelos colegas médicos com a orientação da cirurgia. O trabalho em rede — ginecologista, radiologista especializado, cirurgião e equipe multidisciplinar — é o que garante o melhor resultado para a paciente.
Seu caso é complexo e você precisa de uma avaliação especializada? Agende uma consulta para discutirmos o mapeamento e a estratégia cirúrgica mais adequada para você.
Dr. Tiago Castilho
Cirurgião oncológico com atuação em cirurgia de endometriose.
Atendimentos em Maringá-PR e online.
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Perguntas Frequentes (FAQ)
1- Todo caso de endometriose precisa de um cirurgião oncológico?
Não. Casos superficiais ou leves podem ser tratados por ginecologistas experientes em cirurgia minimamente invasiva. A expertise oncológica é mais relevante para endometriose profunda com comprometimento de múltiplos órgãos, em que a dissecção pélvica complexa e a preservação de estruturas nobres são determinantes para o resultado.
2- A cirurgia de endometriose é a mesma que cirurgia de câncer?
Não. Endometriose não é câncer, e o objetivo da cirurgia é diferente. Porém, a técnica cirúrgica utilizada — dissecação de planos anatômicos, preservação de estruturas nobres, excisão completa com margens adequadas — é semelhante à aplicada em cirurgias oncológicas pélvicas. É essa transferência de habilidades técnicas que torna o cirurgião oncológico especialmente preparado para casos complexos de endometriose.
3- Qual a vantagem da excisão sobre a cauterização?
A excisão remove a lesão por completo, permitindo inclusive a análise histológica do material (confirmação diagnóstica). A cauterização apenas queima a superfície da lesão, sem garantir a remoção das camadas mais profundas. Isso significa que a excisão oferece menor chance de recidiva e melhor controle dos sintomas a longo prazo.
4- Como saber se preciso de cirurgia com equipe multidisciplinar?
O mapeamento pré-operatório — realizado por ultrassom transvaginal com preparo intestinal e/ou ressonância magnética pélvica — define com precisão a extensão da doença. Se houver envolvimento de intestino, ureteres ou bexiga, a participação de uma equipe multidisciplinar é indicada para garantir a abordagem completa e segura de todas as lesões.
