O ciclo menstrual é regular, os exames preventivos do ano estão todos em dia e nada parecia errado. Aí vem a decisão de ter um filho. Passam três, seis, doze meses de tentativas, e o teste de gravidez continua mostrando apenas um risco.
É um momento em que muitas mulheres chegam ao consultório tomadas pela frustração. Elas se perguntam: se eu sempre me cuidei e nunca senti nada, por que não estou conseguindo engravidar?
A verdade é que engravidar não é tão simples quanto a maioria das pessoas imagina. Mesmo em casais jovens e perfeitamente saudáveis, sem qualquer doença diagnosticada, a chance de gravidez natural é de cerca de 20% a cada ciclo menstrual. Ou seja: a cada 100 casais saudáveis tentando engravidar em um determinado mês, apenas 20 conseguirão o positivo.
Quando a endometriose está presente, essa taxa cai consideravelmente, ficando entre 2% e 10% por mês.
Além disso, é fundamental lembrar que a fertilidade não depende apenas da mulher: o fator masculino representa cerca de 40% a 50% das causas de infertilidade do casal e sempre precisa fazer parte dessa equação desde o início da investigação.
Por que o problema aparece na hora de tentar?
Para que uma gravidez aconteça de forma natural, o corpo precisa cumprir uma sequência perfeita de etapas: o ovário precisa liberar um óvulo saudável, as tubas uterinas precisam estar desobstruídas para conduzi-lo, o espermatozoide precisa encontrar esse óvulo e o embrião formado precisa se fixar com segurança no útero.
Se houver qualquer falha em um desses elos, a mulher pode continuar menstruando normalmente, trabalhando e tendo uma vida perfeitamente saudável. Quem não está tentando engravidar simplesmente não tem motivos para investigar essa engrenagem interna.
Além disso, existe um hábito muito comum entre as mulheres: o de acostumar-se com o desconforto. Muitas convivem por anos com cólicas menstruais intensas, barriga inchada recorrente ou dor profunda no momento íntimo achando que é algo comum da mulher. Digo sempre às minhas pacientes: sentir dor não é normal, e ela merece ser investigada, existindo ou não o desejo imediato de engravidar.
O papel da endometriose silenciosa
Estudos da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva apontam que entre 25% e 50% das mulheres que enfrentam dificuldade para engravidar têm endometriose. E há um detalhe crucial: a doença pode ser totalmente silenciosa.
Nas mulheres que não sentem dores, a endometriose costuma se apresentar em formas mais leves ou se esconder em locais específicos, como no próprio ovário — onde forma o endometrioma (cisto de chocolate) —, reduzindo silenciosamente a reserva de óvulos. Por não provocar dores que chamem a atenção no dia a dia, a doença só é descoberta quando o casal passa a investigar a demora para engravidar.
Como é feita a investigação?
Quando o positivo demora para vir, a investigação precisa olhar para o casal como um todo. Avalia-se a ovulação, a qualidade do sêmen do parceiro (por meio do espermograma), a cavidade uterina e a anatomia da pelve.
Para mapear se a endometriose é a causa oculta do problema, os exames preventivos de rotina não são suficientes. É necessário realizar exames de imagem especializados, como a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética da pelve, conduzidos por radiologistas experientes em mapeamento pélvico.
Descobrir endometriose não significa obrigatoriamente operar — e nem que você não vai engravidar
É muito importante deixar algo claro: ter endometriose não é sinônimo de infertilidade definitiva. Muitas mulheres com endometriose engravidam naturalmente. A diferença é que o caminho pode ser mais difícil e a taxa de sucesso varia muito de mulher para mulher, dependendo do local e da gravidade das lesões.
Vale ressaltar também que a cirurgia e a reprodução assistida não são caminhos anulantes, mas sim complementares. Em diversos casos, a cirurgia é realizada primeiro para tratar a dor, restaurar a anatomia e organizar o ambiente pélvico. Mesmo após a intervenção cirúrgica, o casal pode se beneficiar do acompanhamento com um especialista em reprodução humana para otimizar as chances de gravidez (como por meio de inseminação intrauterina ou fertilização in vitro).
Como cirurgião, a primeira pergunta que faço no consultório antes de propor qualquer planejamento é: qual é o seu objetivo de vida no momento?
Entender se a mulher deseja engravidar imediatamente ou no futuro muda completamente a estratégia cirúrgica. Se o foco é a maternidade, a técnica cirúrgica precisa ser ultraespecífica e preservadora: o objetivo passa a ser a remoção minuciosa das lesões inflamatórias protegendo ao máximo os ovários, as tubas uterinas e a reserva ovariana da paciente.
Quando é o momento de buscar ajuda médica?
As diretrizes médicas recomendam iniciar a investigação detalhada nos seguintes prazos de tentativas sem proteção:
- Mulheres com menos de 35 anos: após 12 meses de tentativas sem sucesso.
- Mulheres com 35 anos ou mais: após 6 meses de tentativas sem sucesso.
- Com sintomas associados: se você já convive com cólicas fortes, dor na relação sexual, ciclo muito irregular ou histórico conhecido do casal, a avaliação deve começar imediatamente, sem esperar esses prazos.
Perguntas frequentes sobre dificuldade para engravidar
1. Toda mulher que tem endometriose é estéril?
Não. Muitas mulheres com endometriose engravidam naturalmente. A doença pode reduzir as chances por ciclo (que caem de 20% para 2% a 10%), mas não impede a gestação em todos os casos.
2. É necessário investigar o parceiro mesmo se a mulher tiver suspeita de endometriose?
Sim, obrigatoriamente. A fertilidade é do casal e o fator masculino está presente em cerca de metade dos casos de dificuldade para engravidar. O espermograma é um exame simples e indispensável.
3. A cirurgia de endometriose exclui a necessidade de reprodução assistida?
Não. A cirurgia limpa os focos e restaura a anatomia pélvica, mas muitos casais continuam se beneficiando do acompanhamento com especialista em reprodução humana após o procedimento para otimizar os resultados.
4. Como a intenção de engravidar muda o tipo de cirurgia de endometriose?
Quando a mulher deseja engravidar, o planejamento cirúrgico é focado na preservação reprodutiva: busca-se remover todas as lesões da doença poupando milimetricamente o tecido ovariano e a integridade das tubas uterinas.
5. Com quantos meses de tentativa devo procurar um especialista?
Após 12 meses se você tiver menos de 35 anos, e após 6 meses se tiver 35 anos ou mais. Se houver dor forte ou suspeita prévia de endometriose, a avaliação deve ser antecipada.
Investigação e cuidado especializado
Quando o sonho da maternidade encontra obstáculos, cada passo deve ser planejado com critério, acolhimento e escuta atenta aos seus objetivos pessoais.
Há mais de 10 anos, dedico minha carreira ao diagnóstico e tratamento cirúrgico de mulheres com endometriose profunda e doenças pélvicas complexas. Minha atuação integra técnicas minimamente invasivas (videolaparoscopia e cirurgia robótica) com foco no Cuidado 360º e na preservação da saúde reprodutiva.
Se você está enfrentando dificuldades para engravidar ou deseja investigar dores pélvicas, agende uma avaliação presencial em Maringá-PR ou por telemedicina pelo telefone (44) 99169-8161.
Um grande abraço,
Dr. Tiago Castilho
Cirurgião Oncológico com atuação em Cirurgia Ginecológica e Cirurgia de Endometriose Profunda, mestre e doutor na área, com mais de 10 anos de experiência no tratamento cirúrgico da doença.
CRM-PR 22590 | RQE 2911 | RQE 844
Referências bibliográficas
- World Health Organization (WHO). 1 in 6 people globally affected by infertility. WHO News Release; 2023.
- Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Definition of infertility: a committee opinion. Fertil Steril. 2023.
- Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Endometriosis and infertility: a committee opinion. Fertil Steril. 2012;98(3):591-598. PMID: 22835800.
