O interesse pela tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, ultrapassou há algum tempo o tratamento do diabetes e da obesidade. Com o crescimento de seu uso, surgiram também dúvidas sobre possíveis efeitos do medicamento em outras condições associadas à inflamação, entre elas a endometriose.
Já explicamos em outro conteúdo como funciona a relação entre Mounjaro, tirzepatida e endometriose. Aqui, o objetivo é esclarecer uma diferença fundamental: atuar sobre processos inflamatórios não significa tratar diretamente a endometriose.
Para entender essa relação, primeiro é importante compreender o que são endometriose e adenomiose, como essas condições podem provocar inflamação e onde a tirzepatida realmente entra nessa discussão.
O que é endometriose?
A endometriose é uma doença crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina.
Essas lesões podem aparecer em diferentes regiões da pelve, incluindo ovários, peritônio, trompas e, em casos de endometriose profunda, estruturas como intestino, bexiga e ureteres.
Entre os sintomas mais frequentes estão:
- cólicas menstruais intensas;
- dor pélvica crônica;
- dor durante ou após as relações sexuais;
- alterações intestinais relacionadas ao período menstrual;
- alterações urinárias em alguns casos;
- dificuldade para engravidar.
Além da presença das lesões, a doença pode estar associada a um ambiente inflamatório na pelve.
Mas esse ponto precisa ser compreendido corretamente: a inflamação participa da doença, porém não é sinônimo de endometriose.
E o que é adenomiose?
A adenomiose é uma condição diferente da endometriose, embora as duas possam provocar sintomas semelhantes e até ocorrer ao mesmo tempo.
Na adenomiose, tecido semelhante ao endométrio está presente dentro da musculatura do próprio útero, chamada miométrio.
Essa alteração pode provocar:
- cólicas menstruais intensas;
- aumento do fluxo menstrual;
- sangramento prolongado;
- sensação de peso na pelve;
- dor pélvica;
- aumento do volume uterino.
Uma paciente pode apresentar apenas endometriose, apenas adenomiose ou as duas condições simultaneamente.
Por isso, uma investigação adequada é fundamental para identificar qual doença está relacionada aos sintomas e definir a melhor estratégia de tratamento.
Qual é o papel da inflamação na endometriose?
As lesões de endometriose interagem com os tecidos ao redor e com o sistema imunológico.
Essa interação pode estimular a produção de mediadores inflamatórios, favorecer a formação de novos vasos sanguíneos e contribuir para alterações relacionadas à dor, fibrose e formação de aderências.
Por isso, quando falamos em endometriose, a palavra “inflamação” aparece com frequência.
Entretanto, existe uma diferença fundamental:reduzir determinados processos inflamatórios não significa eliminar as lesões de endometriose.
Essa distinção é especialmente importante quando medicamentos com possíveis efeitos metabólicos e anti-inflamatórios, como a tirzepatida, entram na discussão.
O que é a tirzepatida e como ela age?
A tirzepatida é o princípio ativo do Mounjaro. Ela atua sobre receptores relacionados aos hormônios GIP e GLP-1, participando de mecanismos envolvidos no controle da glicemia, saciedade, metabolismo e redução do peso corporal em pacientes que apresentam indicação médica para o tratamento.
Com o aumento do uso dessa classe de medicamentos, pesquisadores também passaram a investigar possíveis efeitos sobre diferentes mecanismos inflamatórios e metabólicos do organismo.
A partir daí surgiu uma pergunta cada vez mais comum: se a tirzepatida pode reduzir inflamação, ela poderia tratar a endometriose? A resposta exige cuidado.
Mounjaro trata endometriose?
Até o momento, a tirzepatida não é considerada um tratamento específico para endometriose. Isso significa que o medicamento não deve ser entendido como uma terapia capaz de remover ou fazer desaparecer as lesões. Uma paciente pode apresentar melhora de determinados parâmetros metabólicos, perder peso, reduzir fatores relacionados à inflamação sistêmica e ainda continuar apresentando endometriose.
Em outras palavras: melhorar a inflamação não significa necessariamente tratar a causa das lesões.
O Mounjaro pode ter indicação para pacientes com obesidade, diabetes ou outras condições metabólicas específicas, mas seu uso deve seguir critérios médicos próprios. Hoje, a Tizerpatida não é um tratamento aprovado para endometriose.
Então por que algumas mulheres relatam melhora dos sintomas?
Os sintomas da endometriose são multifatoriais. A dor pode estar relacionada à localização das lesões, inflamação, aderências, alterações dos nervos da região pélvica, tensão do assoalho pélvico, funcionamento intestinal e até à presença simultânea de adenomiose.
Por isso, alterações no metabolismo, na composição corporal ou no estado inflamatório geral podem eventualmente modificar a percepção de alguns sintomas. Isso não significa, porém, que as lesões tenham desaparecido.
Essa é uma diferença essencial: melhora dos sintomas não é necessariamente sinônimo de regressão da endometriose.
E se a paciente tiver obesidade ou resistência à insulina?
Esse é um cenário em que a discussão se torna ainda mais interessante.
Algumas pacientes com endometriose também apresentam obesidade, resistência à insulina, síndrome dos ovários policísticos ou outras alterações metabólicas.
Nessas situações, tratar corretamente as condições metabólicas pode trazer benefícios importantes para a saúde como um todo. A tirzepatida pode fazer parte desse tratamento quando existe indicação adequada. Nesse contexto, a paciente pode apresentar melhora do metabolismo e de fatores relacionados à inflamação sistêmica.
Endometriose profunda exige avaliação específica
Quando existe suspeita de endometriose profunda, principalmente com comprometimento de intestino, bexiga, ureteres ou outras estruturas da pelve, é necessário avaliar cuidadosamente a extensão da doença.
Sintomas como dor intensa, dor para evacuar durante o período menstrual, sangramento intestinal cíclico, dor para urinar ou dificuldade para engravidar podem indicar a necessidade de uma investigação mais específica.
O tratamento depende de diversos fatores, como:
- localização das lesões;
- intensidade dos sintomas;
- idade da paciente;
- desejo de engravidar;
- presença de adenomiose;
- impacto da doença na qualidade de vida.
Dependendo do caso, o acompanhamento pode envolver tratamento clínico, hormonal, controle da dor ou cirurgia especializada. Medicamentos voltados ao tratamento da obesidade ou de alterações metabólicas não substituem essa avaliação.
Mounjaro e endometriose: o que sabemos até agora?
O interesse científico em medicamentos como a tirzepatida e os agonistas de GLP-1 é crescente, inclusive por seus possíveis efeitos além da perda de peso.
No entanto, ainda não existem evidências suficientes para afirmar que esses medicamentos tratem diretamente a endometriose.
Essa relação abre espaço para novas pesquisas, mas não substitui os tratamentos já utilizados para endometriose e adenomiose.
Para a paciente, o mais importante é identificar corretamente a origem dos sintomas e realizar uma avaliação individualizada.
Perguntas frequentes sobre Mounjaro, endometriose e adenomiose
1. Mounjaro cura endometriose?
Não. Atualmente não existem evidências de que a tirzepatida cure ou elimine as lesões de endometriose.
2. Tirzepatida pode diminuir a inflamação?
A tirzepatida apresenta efeitos metabólicos importantes, e existem estudos investigando sua influência sobre diferentes mecanismos relacionados à inflamação. Isso não significa, entretanto, que seja um medicamento específico para tratar endometriose.
3. Melhorar a inflamação faz a endometriose desaparecer?
Não necessariamente. É possível melhorar fatores inflamatórios ou determinados sintomas sem que as lesões de endometriose desapareçam.
4. Endometriose e adenomiose são a mesma coisa?
Não. Na endometriose, as lesões estão localizadas fora da cavidade uterina. Na adenomiose, tecido semelhante ao endométrio está presente na musculatura do próprio útero.
5. Quem tem endometriose pode usar Mounjaro?
Ter endometriose não é, por si só, uma indicação para usar tirzepatida. O medicamento deve ser prescrito quando houver uma indicação médica específica e após avaliação individualizada.

Um grande abraço,
Dr. Tiago Castilho
Cirurgião oncológico com atuação em cirurgia de endometriose profunda e oncologia ginecológica.
Atendimentos em Maringá-PR e online.
CRM-PR 22590 | RQE 2911 | RQE 844
Referências
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LAMCEVA, J.; ULJANOVS, R.; STRUMFA, I. The Main Theories on the Pathogenesis of Endometriosis. International Journal of Molecular Sciences, 2023.
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